Escrever é um exercício custoso e talvez seja assim pra você também. Digo, escrever textos, resenhas, resumos, artigos etc. Por exemplo, é difícil começar. Difícil decidir entre dar início pelo primeiro parágrafo ou pelo título (não recomendo a segunda opção). Escolher as palavras e a ordem delas. Desistir de começar pelo parágrafo e, então, tentar um título para o texto. Perceber que nenhuma das opções de título que surgem parece adequada. Por fim, mais uma vez voltar para o primeiro parágrafo e simplesmente deixar as palavras e sentenças aparecerem.
Escrever não é moleza.
Me parece que é bem mais difícil escrever do que falar. Bem, falar tende a ser mais essencial – pra sobrevivência – do que escrever, então tenho a impressão de que acabamos naturalmente por negligenciar o treino da escrita. Nós falamos o tempo todo, todo dia, mesmo que sozinhos em nossos pensamentos. Inclusive, primeiro aprendemos a falar, para só depois começar a escrever.
Também penso que são repertórios muito diferentes. Nós não escrevemos como falamos (não me refiro à Twitter ou outras redes sociais informais). Encadear ideias em um texto parece exigir mais organização e um esforço extra de pensar como escritor e leitor simultaneamente. Também dispomos de menos recursos como oscilações no tom de voz e informalidades, assim como também nos faltam as reações do ouvinte em uma conversa, em que ele sorri, concorda com a cabeça e nos enche de feedbacks acerca do nosso discurso. Dessa maneira eu sinto que preciso direcionar mais energia na estrutura do texto e na cadência das frases e das ideias. Tudo com a intenção de escrever um texto certo – afinal, uma vez que eu acredito ter terminado um texto, é desagradável ter que repensá-lo se não houver um motivo importante e justo.
Escrever é organizar
Não me entenda mal. Essa dificuldade toda não é nada ruim. É um exercício deliberado de olhar para minhas ideias e pensamentos e conversar com elas. Buscar as origens dessas ideias, a estrutura delas, questionar se elas fazem sentido ou não. Por fim, ser obrigado à organizá-las.
E vamos combinar: pensamentos e ideias não tem começo ou fim naturais. São recortes arbitrários do cenário maior que é nossa vida como um todo. Um pensamento, uma ideia, uma opinião é um comportamento, um grande emaranhado de experiências e conexões com o ambiente – somos indissociáveis do ambiente. E caso você tenha caído aqui de paraquedas, para a psicologia comportamental o ambiente é composto de três categorias: ambiente genético, ambiente ontológico e ambiente cultural, logo, são nesses ambientes onde encontramos as origens de nossas ideias.
Então, quando eu escrevo eu sou obrigado a encontrar começo e fim arbitrários. Para isso, sou induzido a entender cada vez melhor os meus próprios pensamentos e ideias a ponto de desenvolver domínio suficiente sobre eles para poder recortar um começo de um texto (mesmo que um texto pequeno) e conduzi-lo até um fim.
Escrever é igual conversar, só que diferente
É uma prática de conversar e reconversar. Escritor e leitor simultaneamente. Dois repertórios diferentes se alternando o tempo todo no exercício. O escritor coloca as palavras e as ideias. É quem sabe (ou acha que sabe). O leitor é ignorante (na verdade o mais esperto dos dois), fica fazendo perguntas, sempre com dificuldade de entender. É quem mais acaba por conduzir a conversa. O leitor me faz perguntas, tem dúvidas e essas dúvidas parecem que me ajudam a selecionar ou jogar fora as palavras e os encadeamentos.
Boas perguntas, bons insights
Algumas perguntas são boas e eu sou obrigado a ter insights para respondê-las. Vou tentar operacionalizar o termo insight no contexto deste texto: tenho um insight quando a) vario diversas vezes na tentativa de escrever uma frase ou parágrafo, b) a ponto de conseguir responder uma pergunta do leitor de maneira a satisfazer a demanda da pergunta e c) estimular novos questionamentos úteis para a continuidade da conversa. Os próprios novos questionamentos úteis são também insights.
Troque difícil por trabalhoso
É intrinsecamente gratificante quando esses insights ocorrem. Eles parecem dizer “continue, apenas continue”. E isso é muito bom porque, como eu comecei o texto dizendo, é difícil escrever. É difícil organizar nossas ideias e pensamentos. Ou melhor, é trabalhoso. Talvez trabalhoso seja uma palavra mais otimista. Afinal, quanto mais treinamos nosso cérebro de uma maneira específica, mais habilitados ficamos para performar desta dada maneira. A neurociência vem sugerindo o quanto o fluxo de atividades neurais é modificado pela prática de atividades direcionadas, tais quais as artísticas e profissionais.
O escritor pensa pela linguagem, o amador pensa pelo que vê
Um artigo de 2014 sugeriu diferenças entre atividades cerebrais de pessoas que escrevem com frequência de outras que não escrevem na mesma constância. Erhardm, Lotze e colaboradores realizaram uma série de neuroimagens (fMRI – functional magnetic resonance imaging) em escritores profissionais e não profissionais durante uma atividade de escrita criativa de alguns minutos. Os resultados das neuroimagens dos escritores profissionais mostraram maior atividade neural nas regiões do núcleo caudal esquerdo (que, de maneira simplista, tem a função de facilitar a transferência de informações e ações bastante treinadas) e também no dorsolateral esquerdo e medial do córtex pré-frontal (regiões com funções de planejamento temporal, controle cognitivo e tomadas de decisão). Enquanto as neuroimagens dos não profissionais mostraram maior ativação do lobo occipital (basicamente responsável pela visão).
A sugestão dos pesquisadores é de que a prática preparou conexões cerebrais dos escritores profissionais favorecendo as habilidades de escrita a ponto de se tornarem processos automáticos, implícitos e eficientes. Menos dependentes de estímulos imagéticos e mais dependentes de processos neurais de comunicação e linguagem – os escritores profissionais criam por meio de palavras, enquanto os inexperientes criam por meio de imagens.
No pen, no gain
Bom, isso explica, ao menos em parte, a minha demora pra escrever. Mas tudo bem. O objetivo é treinar. É aumentar a frequência de estimulação de determinadas regiões do cérebro cujos nomes você não precisa se preocupar em decorar. O importante é saber que as conexões neurológicas e sequência de ativação de diferentes partes do cérebro mudam a medida que nos comportamos.
E praticar uma habilidade envolve repetição. Fazer de novo. E depois de novo. E então outra vez. E de novo. E mais uma vez no dia seguinte. E no dia seguinte repetir o treino. Para então repeti-lo no próximo dia e no próximo dia também. E de novo. E mais uma vez. E quando você terminar o treino, você treina de novo no dia seguinte.
Acho que passei a mensagem. A disciplina é fundamental. E, assim como a (suposta) maestria em um instrumento musical, a disciplina por si só é uma conquista, porém interna, inerente à uma atividade. Ela precisa a) ser encarada como um elemento que faz parte da construção da maestria e b) almejada como o tesouro que é.
Vale comentar: a disciplina não é a mera repetição. A disciplina envolve uma repetição programada, planejada e expansiva de uma tarefa. Não é disciplina checar o celular constantemente ou conversar as mesmas coisas com as mesmas pessoas. Somos disciplinados ao nos percebermos consciente e intencionalmente nadando contra a maré de hábitos já estabelecidos ou de limites até então conhecidos.
- Programada porque agenda tende a aumentar a probabilidade de execução de uma tarefa
- Planejada porque descrever objetivos e elementos que compõem a tarefa também aumenta a probabilidade de sua execução
- Expansiva porque os aprendizados anteriores são pré-requisito e estimulação intrínseca para novas habilidades ainda mais complexas
Escrever é um exercício custoso e talvez seja assim pra você também.
