Queixas

Queixas muitas vezes vêm com introduções tais quais não consigo, tenho dificuldades de, me sinto sufocado(a) com, me sinto desmotivado para, não sei o que fazer em relação a, não tenho liberdade para, brigo sempre com, etc. A queixa de uma pessoa pode ser operacionalizada como a impossibilidade de acesso às consequências desejadas, seja porque ela não dispõe do repertório comportamental pré-requisito para satisfazer-se, seja porque o ambiente é hostil demais para uma fraca tentativa de contracontrole, por exemplo.

As queixas dizem respeito a falta de controle sobre o ambiente e ao insucesso na adaptação saudável e produtiva de uma pessoa nele – até quando parece que não. Dessa forma, o terapeuta atua para que o cliente desenvolva novas habilidades que satisfaçam suas demandas, que produzam consequências e contextos mais favoráveis ao que lhe é importante. A psicoterapia é eficiente quando novos comportamentos são instalados, alguns são suprimidos e outros são fortalecidos, sempre na direção de proporcionar bem-estar para o cliente e para as pessoas que ele ama. 

É importante que na prática diária do clínico as queixas sejam interpretadas como comportamentos, relação organismo/ambiente e que esses mesmos comportamentos são recortes limitados, fenômenos que compõem estruturas maiores e mais amplas da realidade (como a cultura) que também influenciam esses comportamentos. As condições, contextos, ambientes, pessoas as quais o cliente está respondendo para satisfazer suas demandas – e quais demandas são essas – são elementos fundamentais para compor uma análise.

De maneira resumida, as queixas podem ser compreendidas como excessos comportamentais e déficits comportamentais. Quando falamos em excessos e déficits, nos referimos à algumas características mensuráveis do comportamento. Tais características são: intensidade, duração e frequência. Identificar e classificar os comportamentos como excessos e déficits sempre me ajuda a entender melhor o que está acontecendo com o cliente.

Exemplos de excessos comportamentais poderiam ser o vício em jogos (eletrônicos e/ou de azar), trabalhar demais a ponto de não sobrar tempo para outras atividades, agressividade, inconveniência social (por exemplo, fazer comentários desagradáveis e descabidos em situações sociais), emissão de comportamentos sexuais de risco etc. Por outro lado, timidez (não aproximação social), dificuldade de produzir no trabalho e ausência de comportamentos de autocuidado e higiene podem ser exemplos de ser déficits comportamentais. Tanto em déficits quanto em excessos, alguns critérios podem ser utilizados:

a) as consequências deste comportamento são naturais e insalubres para o organismo? (uso abusivo de álcool/ausência de comportamentos de auto higiene)

b) quais são os valores pessoais do cliente? (rezar muito quando se é padre pode não ser um problema/não emitir comportamentos religiosos diante da família é compreensível quando se é ateu)

c) as consequências punitivas deste comportamento são reações de pessoas que o cliente considera importantes? (fazer piadas ofensivas pode mobilizar pessoas que amamos a serem punitivas/não conseguir estudar ou produzir pode levar o cônjuge a ofendê-lo como “folgado” ou “vagabundo”)

d) o cliente tem algum tipo de prejuízo com esses excessos ou déficits? (o cliente pode estar perdendo amigos sendo tão grosseiro/o cliente pode se habituou à uma vida de casado, ou seja, não desenvolveu hábitos que mantém a saúde da relação e agora se encontra diante de um possível divórcio).

e) as pessoas ao redor do cliente estão sendo prejudicadas por este excesso ou déficit? (acidentes podem ser causados por excesso de bebida alcoólica/a escola dos filhos não está sendo paga porque o cliente não consegue mais trabalhar).

A qualificação de um comportamento como excessivo ou deficitário dependente do a) contexto social em que o cliente está inserido; b) dos prejuízos (psicológicos, financeiros, sociais etc) que estão sendo produzidos; c) dos valores e princípios que podem ser usados como orientações e critérios para emissão ou não de comportamentos (que por sua vez também são produtos sociocontextuais).

Acredito que às vezes excessos escondem faltas. E vice-versa.

Compartilhar

Facebook
Twitter
LinkedIn
Telegram
WhatsApp

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *