Querer

Por questões de estrutura linguística nos referimos a nós mesmos como seres autônomos que dispõem dentro de si de um querer (substantivado), que serve de origem/gênese dos comportamentos. Se essa for a noção de homem que guia o trabalho do terapeuta, torna-se improvável que a terapia produza mudanças nos comportamentos do cliente. Sua condição de autônomo sempre superará qualquer tentativa de intervenção.

A proposta comportamental operacionaliza este querer de causa de comportamento para o comportamento em si. Eu passo, então, a identificar na história de aprendizagem (hábitos desenvolvidos, valores, princípios) e na sua adaptação ao ambiente atual que condições o mantém agindo como age, sendo quem é, desejando o que deseja. Mais ou menos assim. Os pais de um adolescente se queixam na psicoterapia que o garoto joga videogame horas seguidas, não mantém seus estudos organizados, não faz lições de casa, os pais tentam afastá-lo dos jogos por meio de gritos, ordens, regras e combinados, mas desistem depois de duas ou três tentativas; o garoto fica de recuperação em mais da metade das matérias da escola, não pratica esportes, não mantém uma alimentação saudável (os próprios pais compram alimentos que se consumidos em excesso produzem problemas de saúde), porém sempre reverte com facilidade – e estudando de última hora – todos os reveses escolares, bimestre após bimestre, ano após ano.

O adolescente dispõe de um fortalecido repertório comportamental para viver exatamente neste contexto. Ele se mantém nesta rotina bastante satisfatória cujas duas únicas coisas mais punitivas são os gritos eventuais dos pais (que logo são extintos se ele mantiver a resistência por uns 5 ou 10 minutos), e as notas baixas (que são facilmente revertidas com três horas de estudo intenso para a recuperação). Se for perguntado para o garoto “Você quer mudar?”, suponho que ele responderá um sonoro “não”. Repare como podemos substituir o não querer por “as condições ambientais as quais o adolescente age, fortalecem os comportamentos indesejáveis dele”. Uma vez realizada essa substituição, abre-se uma possibilidade mais clara de intervenção. Agora conseguimos identificar que o cliente não muda pois as condições ambientais são favoráveis aos comportamentos que ele emite. 

Talvez instintivamente pensemos em uma saída como manejar o ambiente e as regras pra impedir, suprimir usando até mesmo de punições. Acredito que uma abordagem que foque instalar novos interesses e hábitos seja uma saída mais interessante. Primeiro porque não queremos que ele sinta-se em competição ou guerra com a psicoterapia. Segundo que é intrinsecamente reforçador expandir interesses. Queremos que novas experiências em novos contextos, com novas dinâmicas consistentes instalem e evoquem novos interesses e repertórios organizados em novos sistemas organizados de respostas.

O querer do cliente pode ser modificado porque ele é uma relação organismo/ambiente. Não é simples, não é fácil, mas compreender que o querer é, de maneira simples, mantido pelas condições ambientais é o que torna possível o planejamento de intervenções.

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