O texto aqui é um breve comentário/resumo/resenha meu do livro Sociedade do Cansaço do filósofo nascido na Coreia do Sul e professor da Universidade de Berlim.
Na sociedade de desempenho – leia o último post -, a multitarefa é uma habilidade que parece fundamental para a vida, mas na verdade representaria um retrocesso a um estado de vigilância animal. Essa hiperatenção é ampla, mas rasa, impossibilitando o tédio profundo que, para o autor é como “o pássaro onírico que choca o ovo da experiência”. Para organizar as próprias ideias e contrapor essa tendência de ampla hiperatenção, torna-se necessário implementar a pedagogia do ver, conceito que propõe a habituação dos olhos ao descanso e à paciência, aprendendo a “deixar-aproximar-se-de-si” em vez de reagir impulsivamente a cada estimulação externa.
Um pilar dessa pedagogia é o desenvolvimento da potência negativa, já citada no post anterior. Diferente de impotência, a potência negativa é a capacidade ativa de não fazer ou de dizer não ao fluxo ininterrupto de informações e estimulações. Enquanto a potência positiva impele o indivíduo a perceber e reagir, a potência negativa protege a mente da superexposição e da obesidade cognitiva. Sem esse instinto inibitório, o nosso agir se deteriora em uma reação inquieta e hiperativa, sintomas do esgotamento decorrente do exercício ininterrupto da prometida liberdade de escolha e ação.
A recuperação da atenção profunda é a recuperação da capacidade ativa de contemplar. A hiperatividade é, paradoxalmente, uma forma de passividade, uma vez que nos torna indefesos diante dos estímulos que nos são apresentados sem fim e num eterno presente sem futuro e passado. A pedagogia do ver ensina a oferecer resistência a esses estímulos, permitindo que nos “demoremos a ver”, ato este que ultrapassa o mero cálculo ou o processamento de dados.

Segundo Han, o que se vê na sociedade contemporânea é o excesso de positividade (poder poder), excesso esse que se mostra, na prática, uma violência neural. A contemplação torna possível manejar o ambiente para evitar essa “fritação” sem fim, priorizando metas intrínsecas – como a organização concisa das ideias – em detrimento das distrações extrínsecas que sugam a atenção sem custo ou dor.
Exercitar a contemplação contribui a interrupção de nossa “autoexploração” voluntária, evitando o “infarto psíquico” provocado pelo superaquecimento do eu. A pedagogia do ver é uma técnica de preservação da vitalidade, permitindo que a atenção profunda reconstrua os vínculos com os outros e com a própria experiência interna que a hiperatividade destrói.
