O texto aqui é um breve comentário/resumo/resenha meu do livro Sociedade do Cansaço do filósofo nascido na Coreia do Sul e professor da Universidade de Berlim.
A transição para o século XXI trouxe uma mudança profunda no funcionamento das relações humanas: a queda da sociedade disciplinar (termo de Foucault) para a formação da sociedade do desempenho (termo de Han). Se antes os comportamentos das pessoas eram moldados pelo “não poder” (o dever negativo – você não pode), nos dias atuais o molde é o coletivo “sim, nós podemos”. Essa substituição do dever pelo poder gera um cenário onde a coação não vem mais de um agente externo, mas de uma pressão interna para maximizar os próprios resultados, transformando cada indivíduo em um “empresário de si mesmo.”
Tentar descrever o conceito de liberdade nesse contexto de “poder poder” é trabalhoso, pois a liberdade se confunde com a própria coação. O sujeito de desempenho acredita ser senhor de si, mas entrega-se a uma liberdade coercitiva, onde o esforço para se realizar enquanto indivíduo acaba por se tornar autoexploração (mais eficiente do que a exploração por outrem). O explorador é, simultaneamente, o explorado, agressor e vítima coincidem na mesma pessoa, criando um ciclo de produtividade que não encontra um ponto de parada. A autoagressão marca o cotidiano.
A violência do Excesso de Positividade
Diferentes épocas são marcadas por ameaças virais ou externas, a violência atual é neural e sistêmica. Ela não provém da negação, mas de um excesso de positividade: informações demais, comunicação demais, impulsos de desempenho demais. Essa superexposição elimina a alteridade (perceber o “outro”) e o limite, levando a mente a um estado de “superaquecimento”. O resultado não é uma infeção que vem de fora, mas um infarto psíquico provocado pela incapacidade do sistema nervoso de processar o volume massivo de estímulos.
Essa violência desemboca em doenças que definem as atuais gerações: depressão e síndrome de burnout são indicadores clínicos dessa falha no desempenho. A depressão surge no momento exato em que o indivíduo não consegue mais “poder poder”, colapsando diante de um mundo onde nada é declarado impossível e a carência de vínculos se torna a norma. O burnout não é apenas a exaustão física, mas uma mente consumida pelo imperativo de uma performance ininterrupta que aniquila a própria vitalidade em favor de um funcionamento livre de falhas e perturbações.
O título Sociedade do Cansaço captura esse cansaço solitário, que isola os indivíduos em sua própria busca por resultados e sentido, e destrói o senso de comunidade. É um cansaço que “emudece e cega”, consumindo a capacidade de se conectar com o outro. A convivência torna-se uma preocupação apenas por sobrevivência. O autor sugere o resgate de um “cansaço fundamental”, uma espécie de repouso que permite a interrupção da hiperatividade e abre espaço para a vida contemplativa. Uma espécie de treino de fortalecimento da potência negativa – a capacidade de não fazer, de interromper ou não iniciar, a capacidade de dizer não ao fluxo constante de estímulos e calls to action.
